Diário da Cia. Arthur-Arnaldo por Tuna Serzedello
   
 
 

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Reflexão sobre o sistema de avaliações de espetáculos. *****

Na discussão sobre se os guias e jornais devem avaliar as peças (filmes, exposições...) baseados na classificação de estrelinhas, as 10 melhores da cidade ou coisa do gênero, leiam o texto abaixo que foi retirado do livro "O andar do bêbado"do físico Leonard Mlodinov:

"Uma das pequenas contradições da vida é o fato de que, embora a medição sempre traga consigo a incerteza, ela raramente é discutida quando medições são citadas... A incerteza da medição é ainda mais problemática quando a quantidade da medida é subjetiva. (como em trabalhos escolares, peças de teatro, degustações de bebida, estréias do cinema) Um pesquisador da Universidade de Iowa apresentou cerca de 100 trabalhos de alunos a um grupo de doutorados em retórica e comunicação profissional que recebera extenso treinamento em tais critérios. Quando as notas foram comparadas notou-se que os avaliadores só concordavam em metade dos casos. Outra medição que recebe mais atenção do que merece é a classificação de vinhos...Do ponto de vista teórico, temos muitos motivos para questionar o significado dessas classificações...O fato é que as expectativas também afetam a nossa percepção do sabor.

Em 1963, três pesquisadores acrescentaram secretamente um pouco de corante vermelho ao vinho branco dando-lhe a aparência de rosé. Pediram então a um grupo de especialistas que avaliasse a sua doçura em comparação ao mesmo vinho, não tingido. Para os especialistas o falso rosé pareceu mais doce que o vinho branco, o que correspondia as suas expectativas.

Outro grupo de pesquisadores deu duas taças de vinho a um grupo de estudantes de enologia. Ambas continham o mesmo vinho branco, mas a uma delas foi acrescentado um corante ínspido (sem sabor) de antocianina de uva, que fez com que o vinho parecesse tinto. Novamente os estudantes notaram diferenças entre o vinho tinto e o branco segundo suas expectativas.

E um estudo feito em 2008, um grupo de voluntários deu uma nota melhor a uma garrafa com uma etiqueta de US$90 que a outra com etiqueta de US$10, embora os sorrateiros pesquisadores tivessem enchido as duas garrafas com o mesmo vinho. Além disso, o teste foi feito enquanto o cérebro dos voluntários era visualizado com um aparelho de ressonância magnética. As imagens mostraram que a área do cérebro considerada responsável por codificar as nossas experiências do prazer ficavam muito mais ativas quando tomavam o vinho que acreditavam ser mais caro.

Quando realizamos uma avaliação ou uma medição, nosso cérebro não se fia apenas nos estímulos perceptivos diretos. Ele também integra outras fontes de informação como a nossa expectativa.

Degustadores de vinho são muitas vezes enganados pelo oposto do viés da expectativa: a ausência de contexto. Sem contexto, há uma boa probabilidade que você misture os aromas.

Os críticos de vinho estão cientes de todas essas dificuldades. Segundo o antigo editor da Revista Wine Enthusiasm "quanto mais nos aprofundamos no tema, mais percebemos o quanto tudo isso é enganador e ilusório".

Os críticos descobriram que, ao tentarem expressar a qualidade dos vinhos com base em um sistema de estrelas ou em meras descrições verbais como BOM, RUIM e talvez FEIO, suas opiniões não convenciam.

Ainda assim o sistema de classificação propera. Por que?"

Releia o texto acima e substitua termo "vinho" por "espetáculos de teatro".

A dúvida permanece.

(este aí é o Dionísio, deus do vinho e do teatro)



Escrito por Tuna Serzedello às 12h18
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Ética.

Reproduzo esse texto escrito pelo diretor Marcelo Marcus Fonseca no seu blog: http://teatrodoincendio.blogspot.com/2008/01/tica.html

Expressa um pouco do que passa pela minha cabeça hoje.

"Ética: esta é uma palavra esquecida nos dias de hoje.

Vivemos num tempo onde todos querem se dar bem, não importa como.

Não importa sobre o que se tenha que passar por cima. Um tempo onde uma palavra vale menos que nada, alvejados pelas costas que somos.

Como reaprender a confiar? A baixar o tom de voz? A cumprir no dia seguinte a promessa feita, se mais uma surpresa nos faz mudar o rumo de nossa intenção? Como não justificar o erro, mas corrigi-lo para sempre, sem prejuízo ao ego?


O ego se tornou nossa defesa. E não há como culpar aquele que se valoriza demasiadamente para sobreviver num mundo que tenta derrubar sua auto-estima como esporte. Onde encontrar uma amizade que não seja interessada, mesmo que desinteressada seja ela para alimentar outro ego?

Diria até que no mundo de hoje se faz necessária a elevação do ego. Quem não age assim não se impõe. E não é notado...
Mas qual o resultado disso na arte? O resultado é uma infinidade de visões pessoais, sem critérios claros ou acordo com outras partes envolvidas, pois tudo parte de interpretação pessoal.


O teatro, por exemplo, tem leis próprias que não podem ser flexíveis de pessoa para pessoa. Nos últimos tempos os valores desse ofício foram ofuscados, deturpados e readaptados por falta total de conhecimento, em desrespeito a essa arte. Essa banalização foi sendo construída, acho que em parte, por não se ter aulas de ética nas escolas de teatro. Ou pela falta de ética de muitos devido ao tempo predatório em que entramos. Isso cria aproveitadores e “aproveitados conscientes” que querem “atingir um objetivo”.


Um diretor da minha geração jamais chamaria um ator que soubesse estar em outra peça, por ética. Um ator da minha geração nunca assumiria dois compromissos ao mesmo tempo tentando driblar a situação, mas falaria claramente sua situação em cada lugar, por ética. Aprendi ainda com uma geração passada a ter certa ojeriza pela palavra carreira. Em teatro não se faz carreira, se faz história. Dia após dia. Sem ponto para chegar, um dia se olha para trás e vê que construiu algo pela coerência de suas atitudes e escolhas. Um artista é suas escolhas em uma trajetória de vida.
Nunca mais ouvi alguém dizer que gosta mais de ensaiar do que estrear. E isso me entristece um pouco. Quer dizer que o ofício perdeu um pouco seu caráter sagrado e sua poesia para ser usado em benefício próprio.


Não quero com isso julgar ninguém. Quero apenas entender o teatro que é feito hoje em dia que é bem diferente do que eu aprendi. Os mais novos na profissão aprendem antes a fazer política do que atuar, por exemplo. Não conhecem Ésquilo mas sabem quem este ou aquele diretor, porque é diretor, mas nunca viu uma peça dele.


O jovem artista hoje não aceita mais um conselho da geração passada. É político, prefere não contrariar, mas segue sua própria cabeça. Com suas próprias regras. E isso seria bom. Toda mudança vem do jovem artista. Mas geralmente esse nosso novo jovem artista não quer mudar nada. Quer livrar sua cara. Ele não tem uma visão demolidora do que é feito para tentar impor uma nova estética, uma nova idéia de teatro. Porque ele nem sabe o que é uma escola em comparação a outra. Ou ainda a diferença de linguagem entre um Ibsen e um Artaud.


E assim vamos vendo um atraso de novo no teatro. Pessoas que não põe fogo na criação por medo de não serem aceitas socialmente. Sim, porque o teatro virou um jogo social. Dentro da própria sala de ensaio. Hoje em dia é possível ver um jovem ator esculhambando um diretor só porque ele foi dirigido. Porque o jovem de hoje não sabe mais o que é um diretor, porque qualquer um dirige peças.


Esse teatro onde as coisas acontecem no nível pessoal, não interessa a ninguém. Muito menos ao público. O jovem artista não faz teatro para o público hoje em dia: faz para mostrar para os amigos. Ele não projeta a possibilidade de uma bilheteria. Ou seja, não trata teatro como profissão. Ele não acha que teatro possa dar dinheiro. E se não se projeta nem a possibilidade de um sucesso, pra que colocar uma peça em cartaz?


É óbvio que posso estar sendo injusto. Existem jovens de grande valor perdidos nesse emaranhado de baladas onde as pessoas de teatro se encontram onde o último assunto é teatro. Mas o assunto também não é a política, a injustiça social, o desemprego, a estética, a música, a literatura ou qualquer arte que alimente seu espírito. É no máximo um “quem come quem” ou “acabou meu namoro”. E como não há troca, interesse pela vida, pelo mundo, não há também possibilidade de uma escolha de um discurso que esse jovem queria ou tenha para fazer.


Amo a paixão dos jovens atores. Mas frequentemente me irrito com sua dispersão e falta de interesse por assuntos relevantes a humanidade. Fico decepcionado quando ele não procura, não erra, não se submete ao teatro, mas se coloca nele.


Talvez sejam palavras inoportunas em um artigo inacabado em suas idéias. No fundo só divido reflexões nesse blog. Não quero estar mais certo que ninguém. O fato é que depois de um ano afastado voluntariamente do teatro, estou tentando entender que panorama novo se formou nos últimos anos, agora que volto a dirigir. E gostaria de começar a refletir sobre ética. Ética no teatro. Com o teatro. Se isso ainda interessa nos dias de hoje. "

 

Interessa sim, Marcelo.

(a foto é de uma montagem inglesa da peça "Esperando Godot" de Samuel Beckett)



Escrito por Tuna Serzedello às 09h23
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Acabou.

Já estou com saudades do DNA.

Seguem algumas imagens do último dia.

 

Agradeço especialmente aos professores e estudantes do Colégio São Domingos que assitiram a todos os espetáculos da Cia. Arthur-Arnaldo e nos brindaram com um belo debate após a peça nesta noite.

Obrigado!

Espero que possamos voltar com DNA em breve.

 

 



Escrito por Tuna Serzedello às 23h25
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